Resenha - Cidades de Papel, John Green

A adolescência é o período em que mais nos desesperamos para ser aceito, encontrar caminhos e procurar a aprovação dos outros. Mesmo que nesse desespero nem sempre se consiga ser aceito, encontrar o seu caminho ou receber a aprovação dos outros. Nós tentamos. E é meio dessa forma que a história de Cidades de papel acontece, Quentin que já está no último ano do ensino médio tem uma vida comum pra sua idade, tem seus amigos, e claro, uma paixão platônica que nasceu de uma amizade de infância. 

Quentin brincava com sua vizinha Margo, quando um acontecimento que os dois vivenciam altera suas formas de enxergar a vida. O dia é normal, ensolarado, até. As bicicletas são as mesmas de sempre, enferrujadas da garagem. O parque é o mesmo, com jardins e balanços. Mas algo está diferente, destoante. Maculando o ambiente saudável e feliz da infância deles, junto às árvores, jaz o corpo de um homem com sangue já seco, imóvel e sem vida.

A partir de então, essa visão afeta de forma diferente cada personagem, Quentin procura ajuda dos pais (que são, ambos, psicólogos), já Margo toma certa posição investigativa em relação a causa da morte do homem que encontraram. Tornando-se interessada até demais pelo assunto. A última vez que Quentin viu sua amiga Margo foi na noite posterior do evento no parque, ela apareceu misteriosamente na janela de seu quarto com notícias do então suicida. Assustado Quentin se resumiu a observá-la até cair no sono. 

Depois deste acontecimento a personalidade de Margo muda da água pro vinho, seu comportamento com os pais, a forma como lida com problemas e principalmente seu relacionamento com Q, também mudam. Agora Q e Margo são de esferas sociais diferentes, ela popular e descolada, ele desconhecido e considerado esquisito, sofrendo perseguição pelos bad boys da escola. Mas Q ainda nutre um sentimento platônico por Margo mesmo sem conviver com ela, e ainda sabendo que ela namora um dos jogadores do time da escola.

É numa noite comum que Margo reaparece na janela de Q da mesma forma misteriosa que anos antes desapareceu, ela o procura para pedir que ele dirija para ela durante a noite, levando-a a lugares para pôr em prática mais um plano da “misteriosa”, no mínimo ousada, Margo Roth Spiegelman. Ele, é claro, aceita a proposta e se torna motorista particular (e cúmplice) de sua amada por uma noite. Essa jornada só acontece pela adoração de Quentin por ela, que aproveita esse espaço para conhecer e desfrutar da presença enigmática de Margo. É observando ela que ele percebe o quanto é apaixonado e como esse romance se torna mais impossível a cada hora da noite.

Quando enfim eles retornam pra casa e se despedem, Q acredita que este é o início de uma nova fase em sua vida; criando expectativas para o dia seguinte, planeja rever Margo, se declarar e falar de todos sentimentos que possui por ela. Mas no dia seguinte Margo não aparece na escola, nem no outro dia, nem na semana seguinte, deixando a todos preocupados, principalmente os pais. Acontece que Margo Roth Spiegelman já é conhecida por seus desaparecimentos, que sempre deixa pistas de onde pode estar. 

É nesse momento que Q está novamente envolvido nessa paixão/mistério que sempre circulam a personagem. Com ajuda de seus amigos ele refaz os últimos passos de Margo, e encontra várias pistas de onde ela pode estar escondida, o livro se desenrola nesse mistério de encontrar Margo, ainda que o medo de encontrá-la tarde demais seja presente.

Este livro recebe o nome que tem pela opinião da personagem Margo Roth Spiegelman que considera tudo a sua volta tão simplório quanto uma folha de papel. 

Uma cidade de papel para uma menina de papel. (…) Eu olhava para baixo e pensava que eu era feita de papel. Eu é que era uma pessoa frágil e dobrável, e não os outros. E o lance é o seguinte: as pessoas adoram a ideia de uma menina de papel. Sempre adoraram. E o pior é que eu também adorava. Eu tinha cultivado aquilo, entende? Porque é o máximo ser uma ideia que agrada a todos. Mas eu nunca poderia ser aquela ideia para mim, não totalmente.
Margo considera tudo e todos pequenos, frágeis, e simplórios. Ela procura, numa vida intensa de aventuras, ser diferente de todos; deixando um pouco de si em tudo. O amor (ainda que platônico) sentido por Quentin toma dimensões inexprimíveis em palavras, uma sensação que nem mesmo ela sabe lidar (Um romance de John Green, certo?).

 – De perto tudo é mais feio. – disse ela.
 – Não você. – respondi sem pensar.
O livro fala um pouco de liberdade que também é uma aspiração dos jovens. Abrir mão. Fazer escolhas. Q te induz a pensar nos sacrifícios que fazemos ou faremos durante nossa jornada, ainda nos trazendo uma reflexão “amar é libertar”. Até mesmo ela percebe o quão incrível é este sentimento
E então você me surpreendeu. Para mim, você tinha sido apenas um garoto de papel por todos aqueles anos: um personagem de duas dimensões no papel e uma pessoa de duas dimensões na vida real, mas, ainda assim, sem profundidade. Só que, naquela noite, você se provou uma pessoa de verdade. E acabou sendo tudo tão estranho, divertido e mágico que, assim que voltei para meu quarto, senti saudade de você.
O desfecho dessa história é impressionante, hilário e apaixonantemente digno de cinema. 

Resenha por Alice Delmiro

Um comentário

  1. Confesso que nao sou muito de ler, mas esta resenha me impulsionou a desvendar o segredo do sumiço de Margo!!!

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